DAVIS, C. "Piaget ou Vygotsky , uma falsa questão", in: Coleção Memória da Pedagogia , no 2 Vygotsky, São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.
Muito interessante e bastante esclarecedor o artigo escrito por Claudia Davis, onde ela, ao estabelecer as diferenças entre as fundamentações filosóficas de Piaget e Vygotsky, define didaticamente as crenças que cada um defende, principalmente a respeito do desenvolvimento; da concepção de sujeito; dos conceitos de linguagem, cognição e pensamento e como eles se relacionam; e a relação entre desenvolvimento e aprendizagem.
Claudia inicia seu artigo mostrando que mesmo partindo do mesmo pressuposto, “que o desenvolvimento humano se dá em razão de sujeito e objeto manterem entre si relações recíprocas e contínuas, de modo que um constitui o outro continuamente,” (pag. 40) a ótica de Piaget e Vygotsky é diferente. Piaget foca no sujeito e nas ações que esse exerce sobre o objeto e Vygotsky no desenvolvimento humano como sendo constituído pelas relações com o ambiente (físico e social).
Após apontar a diferença essencial entre os pesquisadores que vai resultar em teorias divergentes, Claudia explicita em contrasta, passo a passo, cada uma delas, o que para mim foi significativo, pois pude tirar bastante proveito a aprender muito.
Dois trechos me fizeram pensar em meus alunos, especialmente os coreanos. Muitos deles, por ter uma cultura muito diferente da nossa, quando chegam ao Brasil para aqui permanecer, e mais importante, viver por dois ou mais anos, têm uma série de pré conceitos em relação ao país e a nós, brasileiros. Em consequência disso, se fecham, frequentam apenas locais onde podem conviver com outros coreanos e comem comidas típicas de seu país. Não costumam frequentar locais onde possam se relacionar com outras pessoas e viajam raramente, excelente oportunidade que teriam para conhecer um pouco mais sobre nossa cultura e nossa gente, não se dão essa chance. Consequentemente, nas aulas de Português, as crianças não demonstram nenhuma vontade em aprender o idioma, muito pelo contrário, não entendem a razão pela qual devem estar naquela aula, e acabam por atrapalhar seu andamento. É preciso muito trabalho e dedicação por parte do professor para “conquistar” aquele aluno. Com o tempo, as relações estabelecidas com o meio e com as pessoas mehoram e conseguimos sentir nas crianças satisfação por estarem aqui no Brasil.
Outras famílias se dão a chance de conhecer melhor o país e as pessoas e vivem harmonicamente e o mais importante, felizes.
Nos dois casos, quando partem de volta para seu país, chegam a sofrer por não querer sair do Brasil e deixar tudo e todos.
“o ser humano cria instrumentos de ordem física e simbólica, que passam a ser utilizados para conhecer, criticar e transformar o mundo que o cerca, comunicar suas idéias e experiências e construir novas formas de pensar” (pag. 44)
“ o ser humano, para sobreviver e ser, constrói uma realidade humana e, nesse processo, constrói também a si mesmo. É, portanto, na e pela interação com os outros sujeitos humanos, na atividade humana, que formas de pensar são construídas e/ou transformadas, por sua vez transformando também o entorno. Pode-se dizer, portanto, que é pela apropriação e pela internalização do saber e do fazer da comunidade em que o sujeito se insere que ele se constitui enquanto tal e, ao ser assim constituído, constitui também sua comunidade.” (pag 44)
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Lição de casa 1 - trechos de Piaget
"na medida em que a criança acomoda o seu ouvido e a sua fonação a um novo som que diferencia os seus vagidos, ela passa a ser capaz de reproduzi-los por reações circulares. Logo, bastará que o sujeito ouça o som em questão, mesmo no caso de não ter sido ele quem acabou de o emitir, para que o som ouvido seja assimilado ao esquema correspondente e a acomodação do esquema a esse dado se prolongue em imitação."
(PIAGET, 1945/1990, p. 22)
O trecho acima me faz pensar em algumas aulas, quando apresento para os alunos algumas parlendas e músicas, como por exemplo Hoje é domingo, O sapo não lava o pé e Alecrim.
Como são crianças estrangeiras, a primeira reação em geral é de estranhamento; desdenham e demonstram pouco interesse. Conforme vou trabalhando as parlendas nas aulas, as crianças vão se familiarizando (processo de acomodação) com as melodias e as letras e em pouco tempo não só cantam sozinhas e com prazer, como pedem para ouví-las todos os dias (assimilação).
PIAGET, J. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Guanabara, 1945/1978.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Lição de casa 1 - trechos de Vygotsky
" Quando a mãe vem em ajuda da criança, e nota que o seu movimento indica alguma coisa, a situação muda fundamentalmente. O apontar torna-se um gesto para os outros. A tentativa malsucedida da criança engendra uma reação, não do objeto que ela procura, mas de uma outra pessoa. (...) Nesse momento, ocorre uma mudança naquela função do movimento: de um movimento orientado pelo objeto, torna-se um movimento dirigido para uma outra pessoa, um meio de estabelecer relações." (VYGOTSKY, 1930/2007, p. 57 - grifo do autor)
É muito interessante pensar como um simples gesto do bebê de esticar o braço para tentar pegar um objeto se transforma em comunicação a partir do momento em que uma pessoa dá sentido àquele gesto, entregando o objeto à criança, que percebendo que estabeleceu comunicação, começa a recorrer ao apontar, muitas vezes até chorando ou emitindo sons, se não for atendida prontamente, para demonstrar que realmente quer aquele objeto.
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1930/2007
terça-feira, 23 de junho de 2009
Descrição do processo cognitivo na produção de textos
"O processo de produção de textos descrito por Flower e Hayes analisa diversas atividades de linguagem que se desenvolvem durante a escrita de um texto e considera certa dinâmica entre elas. Que aspecto(s) desse modelo mais chamou sua atenção? Como essa descrição se conecta aos conhecimentos que você já tem sobre a escrita e/ou ensino?"
Gostaria de destacar a importância do procedimento de revisão dentro do processo de escrita. A avaliação do texto e sua alteração, quando necessária, são procedimentos de extrema importância para que o texto produzido seja de qualidade.
Penso que o modo como o escritor 5, na pesquisa realizada por Levy e Ransdell, escreveu seus textos, oscilando frequentemente entre o planejamento e a produção de texto e raramente realizando as atividades de revisão, e sendo avaliado portanto, entre os piores textos, reflete o modo de escrever de muitos, se não a maioria dos estudantes. Os alunos geralmente concentram o tempo no planejamento e na produção propriamente dita, e esquecem da revisão.
Concordo plenamente com a Claudia quando ela diz que “para que os alunos revisem o texto que escrevem espontaneamente, devemos propor situações de produção de textos envolventes. Sabendo que seu texto será lido, valorizado, mesmo que seja em situações de aprendizagem, terá uma relação de maior cumplicidade no ato de escrever.”
Além disso, quando o aluno está envolvido e comprometido com o texto que escreve, as chances de produzir um texto de qualidade e respeitar os procedimentos de escrita são muito maiores, pois não podemos esquecer que como Flower e Hayes apontam, “os fatores motivacionais e afetivos são componentes do processo de escrita de um texto.”
Dessa forma, os procedimentos de escrita são conteúdos de ensino fundamentais e devem ser abordados constantemente pelos professores, que devem ser criativos e originais em suas propostas, já que esse é um contínuo e longo processo.
Gostaria de destacar a importância do procedimento de revisão dentro do processo de escrita. A avaliação do texto e sua alteração, quando necessária, são procedimentos de extrema importância para que o texto produzido seja de qualidade.
Penso que o modo como o escritor 5, na pesquisa realizada por Levy e Ransdell, escreveu seus textos, oscilando frequentemente entre o planejamento e a produção de texto e raramente realizando as atividades de revisão, e sendo avaliado portanto, entre os piores textos, reflete o modo de escrever de muitos, se não a maioria dos estudantes. Os alunos geralmente concentram o tempo no planejamento e na produção propriamente dita, e esquecem da revisão.
Concordo plenamente com a Claudia quando ela diz que “para que os alunos revisem o texto que escrevem espontaneamente, devemos propor situações de produção de textos envolventes. Sabendo que seu texto será lido, valorizado, mesmo que seja em situações de aprendizagem, terá uma relação de maior cumplicidade no ato de escrever.”
Além disso, quando o aluno está envolvido e comprometido com o texto que escreve, as chances de produzir um texto de qualidade e respeitar os procedimentos de escrita são muito maiores, pois não podemos esquecer que como Flower e Hayes apontam, “os fatores motivacionais e afetivos são componentes do processo de escrita de um texto.”
Dessa forma, os procedimentos de escrita são conteúdos de ensino fundamentais e devem ser abordados constantemente pelos professores, que devem ser criativos e originais em suas propostas, já que esse é um contínuo e longo processo.
terça-feira, 2 de junho de 2009
O processo de produção de textos segundo Flower e Hayes
Que diálogo podemos estabelecer entre as concepções de autoria e de enunciado de Bakhtin e a proposição de Flower e Hayes acerca da escrita enquanto atividade de resolução de problemas?
Ao ler o texto, pude perceber que Flower e Hayes concordam com Bakhtin em vários aspectos.
Partindo do princípio de que, para Flower e Hayes, a escrita de textos é uma atividade de resolução de problemas, e o autor, ao “resolvê-lo”, responde a uma pergunta, podemos pensar no princípio dialógico da autoria de Bakhtin, quando diz que “todo falante é por si mesmo um respondente em maior ou menor grau” a um enunciado, pois ele não é o primeiro falante, e por isso sempre responderá a outros discursos.
Pensando no escritor enquanto sujeito do discurso, que segundo Flower e Hayes assume para si a tarefa da escrita e coloca o problema a ser resolvido, e compreendendo o problema retórico como sendo uma representação do escritor, penso na definição de autor-criador de Bakhtin, que ao escrever, ao dar forma ao conteúdo, ao deslocar um fato real para poder representá-lo, atribui seus valores cognitivos e éticos à obra. Considerando, assim, todo enunciado como sendo único e individual, o autor-criador atribui mais uma de suas marcas à escrita, quando determina o gênero e consequentemente recheia a obra com recursos estilísticos.
Outra semelhança em Flower e Hayes e Bakhtin é o que diz respeito ao diálogo com o interlocutor. Os primeiros dizem que “são os objetivos do escritor com relação à situação retórica que o mobilizam a escrever, pois durante a escrita de um texto, à medida que elaboram sua imagem do interlocutor, os escritores constroem progressivamente seus objetivos de escrita”, que são:
· Diálolgo com o interlocutor – para Flower e Hayes “ter intenções claras com relação ao efeito que seu texto deve provocar no leitor, é o modo mais eficiente para um escritor produzir novas idéias durante o processo de composição”. Bakhtin diz que “ao construir o meu enunciado, procuro definí-lo (o enunciado do interlocutor) de maneira ativa; por outro lado, procuro antecipá-lo, e essa resposta antecipável exerce, por sua vez, uma ativa influência sobre o meu enunciado” e que o diálogo com o interlocutor“ irá determinar também a escolha do gênero do enunciado e a escolha dos procedimentos composicionais e , por último, dos meios lingüísticos, isto é, o estilo do enunciado”.
· Relação que o escritor deseja estabelecer com o leitor – a imagem que o autor-criador pretende criar enquanto representação de si mesmo. Flower e Hayes dizem que “todo escritor tem imagens de sua persona armazenadas” e que “ parte da tarefa do escritor é elaborar essa imagem, criar essa voz que vai falar ao leitor”. Bakhtin também diz que a imagem do autor é uma representação e que por mais que tenha sido criada pelo próprio autor, é criada.
Para terminar, Flower e Hayes falam das próprias incursões que os autores fazem nos textos, “na tentativa de construir uma cadeia coerente de idéias a fim de atribuir sentido ao que pretendem dizer”. Bakhtin também fala do diálogo com o próprio enunciado: “o autor se coloca questões e ele próprio as responde, comenta, faz objeções e as refuta, como método de desenvolvimento do pensamento e da reflexão”.
Ao ler o texto, pude perceber que Flower e Hayes concordam com Bakhtin em vários aspectos.
Partindo do princípio de que, para Flower e Hayes, a escrita de textos é uma atividade de resolução de problemas, e o autor, ao “resolvê-lo”, responde a uma pergunta, podemos pensar no princípio dialógico da autoria de Bakhtin, quando diz que “todo falante é por si mesmo um respondente em maior ou menor grau” a um enunciado, pois ele não é o primeiro falante, e por isso sempre responderá a outros discursos.
Pensando no escritor enquanto sujeito do discurso, que segundo Flower e Hayes assume para si a tarefa da escrita e coloca o problema a ser resolvido, e compreendendo o problema retórico como sendo uma representação do escritor, penso na definição de autor-criador de Bakhtin, que ao escrever, ao dar forma ao conteúdo, ao deslocar um fato real para poder representá-lo, atribui seus valores cognitivos e éticos à obra. Considerando, assim, todo enunciado como sendo único e individual, o autor-criador atribui mais uma de suas marcas à escrita, quando determina o gênero e consequentemente recheia a obra com recursos estilísticos.
Outra semelhança em Flower e Hayes e Bakhtin é o que diz respeito ao diálogo com o interlocutor. Os primeiros dizem que “são os objetivos do escritor com relação à situação retórica que o mobilizam a escrever, pois durante a escrita de um texto, à medida que elaboram sua imagem do interlocutor, os escritores constroem progressivamente seus objetivos de escrita”, que são:
· Diálolgo com o interlocutor – para Flower e Hayes “ter intenções claras com relação ao efeito que seu texto deve provocar no leitor, é o modo mais eficiente para um escritor produzir novas idéias durante o processo de composição”. Bakhtin diz que “ao construir o meu enunciado, procuro definí-lo (o enunciado do interlocutor) de maneira ativa; por outro lado, procuro antecipá-lo, e essa resposta antecipável exerce, por sua vez, uma ativa influência sobre o meu enunciado” e que o diálogo com o interlocutor“ irá determinar também a escolha do gênero do enunciado e a escolha dos procedimentos composicionais e , por último, dos meios lingüísticos, isto é, o estilo do enunciado”.
· Relação que o escritor deseja estabelecer com o leitor – a imagem que o autor-criador pretende criar enquanto representação de si mesmo. Flower e Hayes dizem que “todo escritor tem imagens de sua persona armazenadas” e que “ parte da tarefa do escritor é elaborar essa imagem, criar essa voz que vai falar ao leitor”. Bakhtin também diz que a imagem do autor é uma representação e que por mais que tenha sido criada pelo próprio autor, é criada.
Para terminar, Flower e Hayes falam das próprias incursões que os autores fazem nos textos, “na tentativa de construir uma cadeia coerente de idéias a fim de atribuir sentido ao que pretendem dizer”. Bakhtin também fala do diálogo com o próprio enunciado: “o autor se coloca questões e ele próprio as responde, comenta, faz objeções e as refuta, como método de desenvolvimento do pensamento e da reflexão”.